No dia 1º de setembro de 2026, a Apple virou uma página que estava sendo escrita havia 15 anos. Tim Cook, o executivo que sucedeu ninguém menos que Steve Jobs em 2011, deixou o cargo de CEO e passou a ocupar a posição de Presidente Executivo (Executive Chairman) da companhia. Em seu lugar assumiu John Ternus, engenheiro de 51 anos que construiu a carreira inteira dentro da Apple e que, até então, era o principal responsável pela engenharia de hardware de praticamente todos os produtos da marca — do iPhone ao Apple Watch.
A troca não veio isolada. Ela coincidiu com um dos eventos mais aguardados da história recente da empresa: em 9 de setembro, no Steve Jobs Theater, dentro do campus circular do Apple Park em Cupertino, a Apple apresentou ao mundo seu primeiro iPhone dobrável, além da nova geração do iPhone Pro. Foi a estreia de Ternus no palco como CEO, e também um teste imediato de como ele pretende conduzir a empresa mais valiosa do planeta.
Neste artigo, contextualizamos por que essa mudança de comando é significativa, quem é John Ternus, o que exatamente foi anunciado no evento de setembro e o que tudo isso pode significar na prática para quem usa (ou pensa em comprar) produtos Apple no Brasil.
Uma sucessão que ecoa 2011
Para entender o peso do momento, vale lembrar o paralelo histórico. Em agosto de 2011, Steve Jobs, já debilitado pela doença que o levaria à morte poucas semanas depois, escreveu uma carta ao conselho da Apple recomendando Tim Cook como seu sucessor. Cook, que já era o número dois da empresa havia anos, assumiu em um momento de enorme incerteza: muita gente duvidava que a Apple conseguisse manter o ritmo de inovação sem seu fundador.
Quinze anos depois, os números mostram que a aposta deu certo em termos financeiros. Sob a gestão de Cook, o valor de mercado da Apple saltou de cerca de US$ 350 bilhões, em 2011, para algo próximo de US$ 4 trilhões em 2026 — um crescimento superior a 1.000%. A receita anual da empresa foi de US$ 108 bilhões para mais de US$ 400 bilhões no mesmo período, e a base instalada de dispositivos ativos no mundo hoje passa de 2,5 bilhões de aparelhos. A ação da companhia acumulou valorização de mais de 2.000% ao longo da era Cook.
O anúncio da sucessão foi feito de forma unânime pelo conselho de administração em 20 de abril de 2026, com efetivação marcada para 1º de setembro — uma transição planejada e comunicada com meses de antecedência, ao contrário da troca abrupta de 2011. Cook não deixa a empresa: passa a atuar como Presidente Executivo, mantendo influência estratégica, enquanto Arthur Levinson, que presidia o conselho, assume a função de diretor independente líder.
Tim Cook (à esquerda) e John Ternus (à direita) em compromisso oficial em São Francisco, poucos meses antes da transição de comando. Foto: Wikimedia Commons / Parlamento Europeu.
Quem é John Ternus, o novo CEO
Diferentemente de Cook — que veio da área de operações e logística, tendo se tornado famoso por reorganizar a cadeia de suprimentos da Apple nos anos 2000 — John Ternus é, na essência, um engenheiro de produto. Nascido na Califórnia em 1975, ele se formou em Engenharia Mecânica pela Universidade da Pensilvânia em 1997, onde também foi nadador do time universitário. Ainda na faculdade, seu projeto de conclusão de curso foi um dispositivo assistivo para ajudar pessoas com limitações motoras a se alimentarem sozinhas — um indício precoce do interesse por hardware aplicado a problemas concretos.
Ternus entrou na Apple em 2001, ainda nos primeiros anos da era Jobs, trabalhando inicialmente no design do monitor Apple Cinema Display. A partir daí, sua trajetória foi uma escalada constante dentro da engenharia de hardware: em 2013 foi promovido a vice-presidente de Engenharia de Hardware, em 2020 passou a supervisionar o desenvolvimento de hardware do iPhone, e em 2021 tornou-se vice-presidente sênior da área, sucedendo Dan Riccio. Em 2022, assumiu também a responsabilidade pelo hardware do Apple Watch, e, em janeiro de 2026, passou a coordenar adicionalmente a equipe de design industrial da empresa — o grupo que define a linguagem visual de todos os produtos Apple.
Ele é apontado como uma das figuras-chave por trás da transição dos Macs dos processadores Intel para os chips próprios da Apple (Apple Silicon), um dos movimentos técnicos mais arriscados e bem-sucedidos da história recente da empresa, além de ter liderado o desenvolvimento de gerações do iPad e dos AirPods. Fora do trabalho, Ternus é entusiasta de ciclismo e automobilismo, chegando a competir em pistas com um Porsche — um traço de personalidade que contrasta com o perfil mais discreto e operacional de Cook.
Analistas de mercado enxergam na escolha um sinal claro de prioridade estratégica. Segundo comentários de especialistas em governança corporativa após o anúncio, colocar um engenheiro de hardware no comando — em vez de um executivo de finanças, marketing ou serviços — sugere que a Apple quer redobrar a aposta na inovação de produto físico como diferencial competitivo, especialmente em um momento em que rivais como Samsung e Google avançam agressivamente em inteligência artificial embarcada e nos aparelhos dobráveis.
O evento de 9 de setembro: a estreia de Ternus como CEO
Com o slogan “Surprise and shine”, a Apple reuniu jornalistas e convidados no Steve Jobs Theater, dentro do Apple Park, para o que se tornou a primeira grande keynote comandada por Ternus. O evento, realizado às 10h no horário da Califórnia, tinha dois protagonistas centrais: o novo iPhone dobrável, batizado nas primeiras coberturas ora de “iPhone Fold” ora de versões com nomes alternativos, e o iPhone 18 Pro, sucessor direto do modelo do ano anterior.
John Ternus, atual CEO da Apple, fotografado em evento da empresa em 2026. Foto: Wikimedia Commons / Tessa Bury.
O primeiro iPhone dobrável da Apple
Depois de anos de rumores e de assistir a Samsung consolidar sua linha Galaxy Fold desde 2019, a Apple finalmente entrou no mercado de smartphones dobráveis. O aparelho apresentado tem uma tela externa de 5,5 polegadas — para uso rápido, como um smartphone convencional — e uma tela interna de 7,8 polegadas em formato quase quadrado (proporção 4:3), que se abre como um pequeno tablet.
Sob o capô, o novo chip A20 Pro comanda o aparelho, acompanhado de 12 GB de memória RAM. A dupla de câmeras traseiras, de 48 megapixels cada (uma principal e uma ultra-angular), chama atenção pela ausência de uma lente teleobjetiva — uma escolha de engenharia provavelmente ligada ao espaço interno limitado pela dobradiça. Outro detalhe técnico relevante: como o aparelho tem apenas 4,5 mm de espessura quando desdobrado, a Apple optou por manter a autenticação biométrica via Touch ID integrado ao botão de energia, abrindo mão do Face ID nessa primeira geração. A bateria combinada gira em torno de 4.900 mAh.
O preço inicial nos Estados Unidos ultrapassa os US$ 2.000, o que, convertido e somado aos impostos de importação praticados no Brasil, pode colocar a versão mais cara do aparelho na casa de R$ 100 mil segundo estimativas de veículos brasileiros especializados — um valor comparável ao de um carro popular zero-quilômetro. A produção inicial também é limitada, entre 500 mil e 1 milhão de unidades no terceiro trimestre de 2026, com disponibilidade mais ampla prevista apenas para o início de 2027. Ou seja: quem quiser o aparelho logo de cara vai enfrentar tanto um preço salgado quanto estoque curto.
iPhone 18 Pro e os outros lançamentos
Ao lado do dobrável, a Apple renovou sua linha “Pro” com o iPhone 18 Pro, que também recebe o chip A20 Pro e 12 GB de RAM. A câmera principal passa a ter abertura variável, entre f/1.4 e f/2.8, permitindo mais controle sobre profundidade de campo e desempenho em pouca luz — um recurso historicamente reservado a câmeras profissionais. A câmera frontal foi atualizada para 24 megapixels, e o recorte da Dynamic Island, o elemento de interface na parte superior da tela, foi reduzido em cerca de 35%, liberando mais área útil de tela. A paleta de cores ganhou a tonalidade “Dark Cherry”, substituindo o “Cosmic Orange” da geração anterior.
Segundo estimativas de mercado, o preço do iPhone 18 Pro deve ficar entre US$ 1.299 e US$ 1.369, uma alta de US$ 200 a US$ 270 em relação aos US$ 1.099 cobrados pelo iPhone 17 Pro no lançamento anterior. O evento também trouxe atualizações para o Apple Watch, com as novas séries Series 12 e Ultra 4 equipadas com o chip S11, além de uma nova geração de AirPods. Modelos mais acessíveis, como o iPhone 18 padrão, o iPhone 18e e o iPhone Air 2, ficaram de fora da apresentação de setembro e devem chegar apenas na primavera do hemisfério norte de 2027.
Apple Park: o cenário simbólico da nova era
Não é acaso que a Apple tenha escolhido justamente o Steve Jobs Theater, dentro do Apple Park, para apresentar o primeiro grande lançamento da era Ternus. O campus circular de Cupertino, inaugurado em 2017 e projetado para acomodar mais de 12 mil funcionários, é hoje o símbolo arquitetônico da Apple pós-Jobs — construído sob supervisão de Tim Cook, mas concebido ainda com a participação do fundador da empresa antes de sua morte.
Vista aérea do Apple Park, campus-sede da Apple em Cupertino, Califórnia, onde fica o Steve Jobs Theater. Foto: Wikimedia Commons.
Realizar ali a estreia de Ternus como CEO reforça uma mensagem de continuidade: a nova liderança não rompe com a identidade da Apple construída nas últimas décadas, mas assume o desafio de mantê-la relevante em um mercado cada vez mais disputado por concorrentes chineses, coreanos e pelo avanço acelerado da inteligência artificial em outros ecossistemas de hardware.
O que muda na prática para o consumidor brasileiro
Para quem usa iPhone, Apple Watch ou qualquer outro produto da marca no dia a dia, a troca de comando em si não deve gerar mudanças imediatas perceptíveis — decisões de design, preço e estratégia de produto são processos que levam anos para amadurecer, e boa parte do que foi lançado em setembro já estava em desenvolvimento havia bastante tempo, sob a gestão conjunta de Cook e Ternus. Mas alguns pontos práticos já valem atenção:
- O iPhone dobrável chega ao mercado global de forma limitada e cara, então não deve ser uma opção realista para a maioria dos consumidores brasileiros neste primeiro momento — sua função principal, por ora, é sinalizar capacidade tecnológica e testar a resposta do público.
- O iPhone 18 Pro, por outro lado, é o lançamento com maior chance de chegar às prateleiras brasileiras em quantidade e ser efetivamente considerado por quem está trocando de aparelho, ainda que com aumento de preço em relação à geração anterior.
- Câmbio, impostos de importação e a política de preços da Apple no Brasil historicamente fazem os valores por aqui superarem, proporcionalmente, os praticados nos Estados Unidos — o que deve se repetir com essa nova leva de produtos.
- A mudança de liderança tende a ser sentida, na prática, por quem acompanha a cultura e a estratégia de longo prazo da empresa: analistas apontam que a escolha de um engenheiro de hardware para o posto mais alto sinaliza que inovação física de produto — e não apenas serviços digitais — deve continuar no centro da estratégia da Apple nos próximos anos.
Um momento de transição observado de perto pelo mercado
A resposta inicial do mercado financeiro ao anúncio da sucessão foi discreta, mas positiva: as ações da Apple subiram cerca de 2,2% no dia da confirmação da mudança, e a diretoria destacou que a decisão fazia parte de um plano de sucessão de longo prazo, e não de uma reação a pressões externas. Isso contrasta com episódios de troca abrupta de CEO vistos em outras grandes empresas de tecnologia, e reforça a leitura de que a Apple tratou o momento como um marco planejado, e não como uma crise.
Ainda é cedo para avaliar o impacto de longo prazo da era Ternus. O primeiro grande teste — o iPhone dobrável — só terá seu veredito real quando chegar às mãos dos consumidores em maior escala, algo previsto para os próximos meses. Até lá, o mercado, os concorrentes e o público seguem de olho em como o engenheiro que passou 25 anos dentro da Apple vai equilibrar a herança de Tim Cook com sua própria marca à frente da empresa mais valiosa do mundo.
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